quarta-feira, 13 de maio de 2026

"CAPRITTUS´S", a Lenda dos Cabrais e a Escola da Natureza


LENDA DOS CABRAIS 

BELMONTE


Conta-se que um pastor da zona da Serra da Estrela, ouviu em sonhos três noites seguidas; “Vai a Belém e lá encontrarás o teu bem.” 

Partiu, e quando chegou a Belém, passaram três dias e não encontrava o seu bem. Tomou o caminho de regresso e encontrou um almocreve. O pastor contou-lhe o que se tinha passado, ao que o almocreve respondeu que também tinha sonhado uma coisa parecida; que no sítio de Belmonte, debaixo da penha onde uma cabra amarela e a sua cria, se encontrava uma cabra e um cabrito de ouro. 

O pastor quando chegou a Belmonte removeu um barraco, onde encontrou uma cabra e um cabrito de ouro. Decidiu ir entregar uma das peças ao Rei, dizendo-lhe que tinha uma cabra ou um cabrito para lhe oferecer, qual deles ele preferia. 

O monarca disse que queria o cabrito, que sempre era mais tenro. O pastor ofereceu-lhe o cabrito, ao ver que era de ouro, o Rei disse que se soubesse que era de ouro, tinha escolhido a cabra. 

O pastor ofereceu-lhe também a cabra, contando como tinha encontrado essas oferendas. Como recompensa, o Rei disse ao pastor que subisse ao monte onde encontrou o tesouro, e que lhe oferecia todas as terras que percorresse a cavalo num dia, desde aí”. 

Assim se formou o poderio dos Cabrais, e assim se explicam as duas cabras passantes do seu brasão.




Lenda, Sonho e Projecto de Escola da Natureza

Diz a lenda que o pastor de Belmonte não encontrou o seu ouro nas terras distantes de Belém, mas sim no regresso a casa, escondido sob a penha que o sol da Serra da Estrela aquecia. Ele teve a visão, a audácia de caminhar e a generosidade de oferecer o que descobriu, transformando um sonho em herança e território. Hoje, interrogo o universo com a mesma esperança desse pastor: será este o momento em que as vozes que sopram o projeto Árvores do Amor encontram, finalmente, o seu chão? Se o tesouro estava guardado no sopé do monte à espera de quem o soubesse ver, estarei eu prestes a encontrar a terra onde as raízes da nossa Escola da Natureza se irão entrelaçar? Talvez o meu Belém tenha sido o tempo de espera e de maturação, e o meu Belmonte seja o aqui e o agora, o lugar onde a pedra se move para revelar o propósito. Pergunto aos astros se o cavalo que delimitou o poderio dos Cabrais corre hoje por mim, desenhando no horizonte os limites de um novo reino — não um de posses, mas de educação, amor e regeneração. Universo, haverá um destino generoso pronto a reconhecer o valor deste ouro que não brilha, mas que respira, cresce e dá sombra? Tal como o pastor que removeu o barraco para revelar o cabrito de ouro, sigo removendo as pedras da incerteza, aguardando que a terra se abra para que o meu "bem" se cumpra. Que o brasão deste novo tempo não seja de metal precioso, mas de árvores vivas, e que a terra prometida surja agora, pois o sonho já se repetiu no meu peito muito mais do que três noites.




 Instalação e Fotografias Zito Colaço

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Charcos e Charnecas: Ecossistemas Húmidos Atlânticos


Charcos e Charnecas: Ecossistemas Húmidos Atlânticos

Os charcos temporários e as Charnecas húmidas de Erica ciliaris representam dois dos ecossistemas mais singulares e frágeis da paisagem atlântica e mediterrânica, definindo-se pela sua relação íntima com o ciclo da água. Os charcos temporários são depressões superficiais que se enchem com as chuvas de outono e inverno, mas que, devido à evaporação e à falta de precipitação, secam totalmente durante os meses de verão. Esta transição extrema entre uma fase aquática e uma fase terrestre cria um ambiente único, livre de peixes predadores, o que permite a sobrevivência de comunidades raras de anfíbios e crustáceos pré-históricos, além de uma flora especializada que completa o seu ciclo de vida num curto espaço de tempo.

Por outro lado, as Charnecas húmidas atlânticas dominadas pela urze-roxa, ou Erica ciliaris, ocorrem em solos pobres e ácidos que permanecem saturados de água durante grande parte do ano. Sob a influência directa do clima oceânico, estas áreas são caracterizadas por uma vegetação densa e resiliente, onde a flora convive com musgos e outras plantas higrófilas que funcionam como autênticas esponjas naturais. Ambos os habitats são fundamentais para a conservação da biodiversidade, actuando como reservatórios de vida e reguladores hídricos da paisagem, embora enfrentem ameaças constantes devido à intensificação agrícola e às alterações climáticas que perturbam os seus ciclos naturais de humidade.







Ambos os habitats estão protegidos pela legislação europeia (Rede Natura 2000). Eles funcionam como "esponjas" naturais que ajudam a purificar a água e a recarregar aquíferos, além de albergarem espécies que não existem em mais lado nenhum do planeta.

Se passares por um charco seco no verão, pode parecer apenas terra batida, mas por baixo estão milhões de ovos e sementes à espera da primeira gota de chuva para "ressuscitarem".



 Fotografias Zito Colaço

domingo, 3 de maio de 2026

O Mar que Devolve, a Arte que Renasce


O Mar que Devolve, a Arte que Renasce

No coração do Projecto Árvores do Amor, anteriormente conhecido como Love Trees Project, bate uma consciência ecológica que se manifesta de forma profunda em cada inverno. É nesta estação, marcada pela força das marés e pelo ímpeto das tempestades, que o litoral se torna o palco de uma colheita singular. O mar, num ciclo eterno de devolução, deposita na areia uma mistura heterogénea de memórias: desde troncos esculpidos pela erosão e pelo sal até ao rasto persistente da actividade humana, como plásticos e outros resíduos que flutuam à deriva.

Esta recolha cuidadosa ao longo da costa é o ponto de partida para uma metamorfose necessária, que em breve ganhará um novo fôlego. O que muitos ignoram como detrito, o projecto abraça como matéria-prima carregada de potencial narrativo, estando já a ser planeado o espaço onde esta transformação atingirá o seu expoente máximo: uma oficina dedicada, que se encontra actualmente em fase de construção. Será neste novo refúgio criativo que as peças serão trabalhadas e onde o processo de dar vida nova aos elementos resgatados se tornará ainda mais estruturado e imersivo.

Ao integrar estes elementos no processo artístico, as obras resultantes deixam de ser meros objectos decorativos para se tornarem testemunhos silenciosos da nossa relação com o planeta. A transformação de um resíduo num detalhe estético serve como um poderoso lembrete da urgência em protegermos o nosso ecossistema e da responsabilidade que todos partilhamos. Mais do que o ato da criação em si, esta variante do projecto pretende despertar o olhar do observador, utilizando a futura oficina como um polo de sensibilização onde a arte inspira uma nova atitude perante a natureza, provando que é possível curar e embelezar o mundo através da consciência e da criatividade.