domingo, 1 de março de 2026

"Esculturas de Milhões".


"Esculturas de Milhões".

Olhem bem para estas esculturas monumentais em ferro, estas artérias industriais que rasgam a paisagem com uma eficiência invejável. Não são apenas tubos; são os condutos por onde flui, sem interrupções, a nossa verdadeira prioridade nacional. É fascinante observar como a engenharia humana atinge o seu apogeu quando o objetivo é garantir que o pé de um privilegiado não tropece numa rocha ou que a varanda de um condomínio de luxo não perca a sua vista direta para o azul. Para isso, há sempre milhões. Há sempre ferro, há sempre combustível, há sempre urgência.

Enquanto as máquinas cospem toneladas de areia para satisfazer a estética do litoral mais favorecido, o resto do país aprende a viver com a escassez. É uma lição de economia aplicada: o dinheiro que falta para estancar as infiltrações nas escolas públicas ou para garantir que um hospital não feche as urgências ao fim de semana, sobra, milagrosamente, para alimentar esta sede insaciável de repor dunas artificiais. É o triunfo do cosmético sobre o vital. Preferimos investir numa praia perfeita para a fotografia de redes sociais do que em paredes sólidas para quem não tem onde morar.

Estes tubos de ferro são, no fundo, o símbolo de uma escolha. Representam a precisão cirúrgica com que se protege o capital, enquanto a saúde, a educação e a habitação dos mais pobres são deixadas à mercê da erosão do tempo e do esquecimento. No final do dia, as máquinas param, o silêncio volta à costa, e a areia acaba sempre por voltar ao mar — tal como o investimento público acaba sempre por fugir de quem mais precisa, deixando para trás apenas a ferrugem e a conta para pagarmos.

Fotografias Zito Colaço



 

O Abraço do Calor


O Abraço do Calor

A tempestade já é uma memória distante, um rumor que o vento levou. Agora, o que resta é o domínio de um sol sem filtros, que reclama o mundo para si. Não há brilho de poças nem o peso da humidade; apenas a transparência do ar e a terra que, finalmente seca, se deixa aquecer até ao núcleo.

Onde antes havia o cinzento do medo, há agora uma nitidez absoluta. As cores parecem mais vivas, como se o temporal as tivesse polido em vez de as castigar. É uma bonança feita de silêncio e de poeira dourada a dançar na luz. O sol já não pede licença; ele ocupa o espaço, estende-se pelas calçadas e convida o corpo a relaxar o ombro, a desfranzir a testa.

É o momento em que a vida se desprende do abrigo. A calma é total, o horizonte está limpo e o mundo parece, finalmente, sólido e seguro sob os nossos pés.







 Fotografias Zito Colaço