sexta-feira, 6 de março de 2026

O Abismo das Asas


O Abismo das Asas

"A segurança da casca tornou-se o meu maior sufoco. Há momentos em que o mundo se parte para que a vida possa, finalmente, acontecer. Se me vês em pedaços, sabe que não estou a quebrar-me — estou a sair. Renascer dói porque exige que abandonemos a forma que nos habituamos a ter. Mas entre o conforto do ovo e a imensidão do voo, eu escolhi o abismo das asas."


  A segurança da casca tornou-se o meu maior sufoco. Durante muito tempo, confundi proteção com sobrevivência, sem perceber que as paredes que me guardavam eram as mesmas que impediam o meu fôlego. Há momentos em que o mundo se parte para que a vida possa, finalmente, acontecer, pois nada que é vivo permanece contido para sempre. O estalo da ruptura não é um sinal de fracasso, mas o som da liberdade a reivindicar o seu espaço. Se me vês em pedaços, sabe que não estou a quebrar-me — estou a sair. O que parece ruína aos olhos de quem observa de fora é, na verdade, a arquitetura da minha própria libertação. Renascer dói porque exige que abandonemos a forma que nos habituamos a ter, desapegando-nos dos contornos que já não nos servem e de uma identidade que se tornou pequena demais para a nossa alma. É um processo cru e despido, onde a vulnerabilidade é o único caminho possível. Mas entre o conforto sufocante do ovo e a imensidão incerta do voo, eu escolhi o abismo das asas. Escolhi trocar a ilusão do controlo pelo risco da altura, compreendendo que a queda só é um perigo para quem ainda não aceitou que o destino de tudo o que racha é, um dia, ganhar o céu.  






 Instalação e Fotografias Zito Colaço

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