sábado, 21 de fevereiro de 2026

"A Incrível Viagem de Luísa pelo Caminho das Águas"

Era uma vez uma menina chamada Luísa, que vivia em uma casa cercada por um jardim que ela amava muito. Luísa sempre foi muito observadora, e um certo dia, enquanto tentava regar as suas flores favoritas, percebeu que da mangueira saía apenas um fiozinho de água fraco e cansado. Curiosa, ela decidiu investigar de onde vinha aquela água e por que ela parecia estar perdendo a força. Com o seu chapéu de exploradora e uma garrafa reutilizável na mão, Luísa seguiu o caminho das mangueiras até ao riacho que passava nos fundos da sua casa.

Ao chegar lá, ela encontrou algo inesperado: uma pequena criatura feita de luz e transparência, que flutuava sobre uma pedra. Era o Pingo, um espírito da água. Ele explicou à Luísa que o ciclo da água estava triste porque as pessoas se tinham esquecido de como ele era precioso. Pingo convidou Luísa para uma viagem mágica. Num piscar de olhos, ela sentiu-se leve como uma pluma e viu-se a subir para as nuvens, transformando-se em vapor, sentindo o calor do sol e o frescor das altitudes. Ela aprendeu que a água que ela bebia hoje era a mesma que já tinha refrescado dinossauros e regado florestas ancestrais há milhões de anos.

A aventura continuou por caminhos subterrâneos, onde Luísa viu como as raízes das árvores filtravam a água, deixando-a pura e cristalina. Mas ela também viu lugares onde o plástico e o desperdício tentavam parar esse fluxo vital. O Pingo mostrou-lhe que cada gota economizada em casa era, na verdade, um presente que ela enviava de volta para a natureza. Comovida, Luísa prometeu ser a embaixadora da água na sua vila. Ao voltar para o seu jardim, a água voltou a correr com alegria, e Luísa percebeu que, ao cuidar de cada gota, ela estava, na verdade, a cuidar do coração do mundo inteiro.









 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O mar espreita e o avanço segue...


Maré de Mudança: A Erosão Acelerada da Margem Sul

O cenário actual ao longo da linha de costa, que se estende da Caparica até à Fonte da Telha, revela a força avassaladora de um oceano em constante reconquista. É como se, a cada tempestade, o mar espreitasse as fragilidades da terra para depois fazer seguir o seu avanço implacável. Este inverno, marcado por sucessivas intempéries e uma agitação marítima particularmente agressiva, deixou a descoberto a extrema vulnerabilidade da orla costeira da Península de Setúbal, transformando a paisagem num testemunho de erosão acelerada.

A remoção de areia atingiu níveis alarmantes, deixando as praias despidas da sua proteção natural. Sem o volume sedimentar necessário para dissipar a energia das ondas, a força das águas atinge diretamente a base das dunas, provocando o recuo da linha de costa a um ritmo difícil de ignorar. Este défice de sedimentos resulta de uma combinação complexa entre as alterações climáticas — que elevam o nível médio do mar e aumentam a frequência de eventos extremos — e a intervenção humana, que ao longo de décadas alterou o ciclo natural de transporte de areias que deveria alimentar estas praias.

As consequências são visíveis e desoladoras nas infraestruturas de apoio ao longo de toda a extensão costeira. Bares, esplanadas e passadiços, que durante o verão servem de suporte ao lazer, transformaram-se em estruturas fragilizadas, muitas vezes reduzidas a esqueletos de madeira e betão vergados pela força dos elementos. O galgamento costeiro destruiu fundações e invadiu espaços interiores, provando que a fronteira entre o urbanismo e o oceano está cada vez mais ténue. A destruição destes apoios de praia serve como um lembrete visual da fragilidade das construções humanas perante o dinamismo de um sistema natural que não reconhece limites, evidenciando um território em profunda mutação onde a gestão costeira enfrenta agora desafios sem precedentes.











Texto e Fotografias Zito Colaço

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Arriba Fóssil e o Regresso às Origens Argilosas

Erosão e Vulnerabilidade: O Desnudar da Costa de Caparica


 A Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica, outrora imponente e resguardada por extensos areais, atravessa hoje uma fase de transformação profunda e visível. O recuo da linha de costa, impulsionado pela subida do nível do mar e pela crescente violência das tempestades invernais, tem provocado um desequilíbrio sedimentar severo. O oceano, ao retirar a areia que servia de barreira natural e amortecedor, expôs o que estava escondido há milénios: as camadas de solo argiloso e as bases rochosas que sustentam a arriba.

Esta exposição das argilas altera radicalmente a fisionomia da paisagem. Onde antes existia o dourado das dunas, surgem agora tons acinzentados e superfícies plásticas que reagem de forma diferente aos elementos. Ao contrário da areia, que permite a drenagem da água, a argila é impermeável e instável quando saturada. Este fenómeno cria um ciclo de vulnerabilidade, pois o solo argiloso, ao tornar-se escorregadio e quebradiço, facilita o deslizamento das camadas superiores e acelera a erosão da própria arriba, colocando em risco a flora endémica que se agarra às vertentes.

O que observamos é, na verdade, a Arriba Fóssil a reclamar a sua natureza geológica. Sendo um registo vivo de épocas em que o mar batia directamente contra estas arribas, o cenário actual é um regresso forçado ao passado, mas com a urgência imposta pelas alterações climáticas. A perda do areal não é apenas uma questão estética ou turística; é a remoção da armadura da costa, deixando a "carne" da terra — estas argilas e sedimentos antigos — à mercê da força erosiva das marés, redesenhando o mapa de um dos ecossistemas mais sensíveis de Portugal.

O Recuo do Escudo e a Exposição da Arriba Fóssil na Costa de Caparica 

Esta metamorfose é particularmente dramática na zona da Fonte da Telha, onde a erosão deixou de ser uma estatística abstrata para se tornar uma evidência física avassaladora. Em determinados troços desta praia, a fúria das marés e a escassez de reposição sedimentar resultaram num rebaixamento drástico do areal, com perdas que superam os quatro metros de altura de areia. Onde outrora existia um plano suave e contínuo, restam agora desníveis abruptos que funcionam como uma ferida aberta na paisagem, revelando a anatomia escondida da costa que deveria permanecer protegida.

Este desaparecimento vertical da areia actua como um catalisador de instabilidade, pois ao remover esta "almofada" de quatro metros, o oceano ganha um acesso direto e violento à base da arriba. Sem a protecção do volume arenoso, a base da Arriba Fóssil sofre o impacto directo da ondulação, o que acelera o processo de sapa (erosão de base) e compromete a sustentabilidade de toda a vertente. O afloramento das camadas argilosas profundas, outrora soterradas por toneladas de sedimentos, transforma o solo numa superfície escorregadia e instável, dificultando a fixação da vegetação e colocando em causa a segurança de acessos e infraestruturas que foram projectados para uma cota de praia muito superior. O que vemos na Fonte da Telha é o colapso de uma barreira natural, onde a ausência da areia deixa a arriba exposta a um embate para o qual não está preparada, redesenhando de forma irreversível a fronteira entre a terra e o mar.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O Abismo das Asas


 "A segurança da casca tornou-se o meu maior sufoco. Há momentos em que o mundo se parte para que a vida possa, finalmente, acontecer. Se me vês em pedaços, sabe que não estou a quebrar-me — estou a sair. Renascer dói porque exige que abandonemos a forma que nos habituamos a ter. Mas entre o conforto do ovo e a imensidão do voo, eu escolhi o abismo das asas."

Instalação e Fotografia Zito Colaço

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

"Persona"

Persona (Máscara)

Do latim personare: "soar através de". Uma máscara não serve apenas para esconder; serve para dar uma forma à voz. No contexto das Árvores do Amor, esta instalação explora a tensão entre a identidade protegida e a vulnerabilidade do afecto.

Somos árvores que caminham, usando rostos esculpidos pelo tempo e pelas circunstâncias, à espera do momento em que o amor nos permita, finalmente, deixar cair a máscara e apenas ser.


 Instalação e Fotografias Zito Colaço

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Zito Colaço, na Floresta, com a criançada, à Caça do Tesouro.


Onde o Tesouro é a Própria Vida


Na floresta do Zito, o silêncio não é ausência de som, mas sim uma linguagem que as crianças aprendem a decifrar. Sob a copa das árvores, o tempo abranda. Ali, o Zito não é apenas um guia; é um guardião de histórias que ensina aos mais pequenos que a natureza não é um lugar que se visita, é a nossa casa.


A "caça ao tesouro" começa com o primeiro estalar de ramos sob as botas. Mas, nesta aventura, as moedas de ouro são substituídas por descobertas muito mais valiosas, O brilho do orvalho numa folha de carvalho, O desenho misterioso da casca de um sobreiro, O perfume da terra húmida que guarda as raízes do futuro.


As crianças correm, mas param quando o Zito aponta para o alto. Ele ensina-as a ver o que está invisível aos olhos apressados da cidade. Cada árvore do amor que encontram pelo caminho é um símbolo de resistência e de afeto, uma lição viva de que cuidar da floresta é, no fundo, cuidar de nós mesmos.


Neste passeio, o verdadeiro tesouro não está escondido no final do trilho. Ele revela-se no brilho dos olhos das crianças, na sujidade feliz das mãos que tocam a terra e na certeza de que, enquanto houver quem leve os mais novos pela mão até ao coração do bosque, a floresta continuará a bater forte dentro de todos nós.











segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

"CAPRITTUS" - Instalação e Fotografias de Zito Colaço


LENDA DOS CABRAIS 

BELMONTE


Conta-se que um pastor da zona da Serra da Estrela, ouviu em sonhos três noites seguidas; “Vai a Belém e lá encontrarás o teu bem.” 

Partiu, e quando chegou a Belém, passaram três dias e não encontrava o seu bem. Tomou o caminho de regresso e encontrou um almocreve. O pastor contou-lhe o que se tinha passado, ao que o almocreve respondeu que também tinha sonhado uma coisa parecida; que no sítio de Belmonte, debaixo da penha onde uma cabra amarela e a sua cria, se encontrava uma cabra e um cabrito de ouro. 

O pastor quando chegou a Belmonte removeu um barraco, onde encontrou uma cabra e um cabrito de ouro. Decidiu ir entregar uma das peças ao Rei, dizendo-lhe que tinha uma cabra ou um cabrito para lhe oferecer, qual deles ele preferia. 

O monarca disse que queria o cabrito, que sempre era mais tenro. O pastor ofereceu-lhe o cabrito, ao ver que era de ouro, o Rei disse que se soubesse que era de ouro, tinha escolhido a cabra. 

O pastor ofereceu-lhe também a cabra, contando como tinha encontrado essas oferendas. Como recompensa, o Rei disse ao pastor que subisse ao monte onde encontrou o tesouro, e que lhe oferecia todas as terras que percorresse a cavalo num dia, desde aí”. 

Assim se formou o poderio dos Cabrais, e assim se explicam as duas cabras passantes do seu brasão.





O Cabrito 

Povoaste a paisagem grega, guardas um timbre clássico algo de conciso

Ágil e jovem — quem negaria? — basta ver-te sobre os abismos

sem receio ou vertigem, como a vida.

José Paulo Moreira da Fonseca


 "CAPRITTUS"

Instalação e Fotografias de Zito Colaço
2025

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O Caminho das Oliveiras Milenares da Horta da Moura











HORTA DA MOURA

Deixe-se seduzir

Deixe-se seduzir pelos horizontes largos do Alentejo Interior, onde a tranquilidade da paisagem se funde com o Alqueva.

Num cenário de beleza serena, entre oliveiras milenares, caminhos de sombra e recantos que convidam à contemplação, a Horta da Moura revela-se como um refúgio autêntico.

Aqui, o tempo abranda e os sentidos despertam.

Venha descobrir, saborear e ficar.

E verá como será sempre fácil voltar.

https://www.hortadamoura.com/


 Fotografias Zito Colaço

2014