terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Arriba Fóssil e o Regresso às Origens Argilosas

Erosão e Vulnerabilidade: O Desnudar da Costa de Caparica


 A Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica, outrora imponente e resguardada por extensos areais, atravessa hoje uma fase de transformação profunda e visível. O recuo da linha de costa, impulsionado pela subida do nível do mar e pela crescente violência das tempestades invernais, tem provocado um desequilíbrio sedimentar severo. O oceano, ao retirar a areia que servia de barreira natural e amortecedor, expôs o que estava escondido há milénios: as camadas de solo argiloso e as bases rochosas que sustentam a arriba.

Esta exposição das argilas altera radicalmente a fisionomia da paisagem. Onde antes existia o dourado das dunas, surgem agora tons acinzentados e superfícies plásticas que reagem de forma diferente aos elementos. Ao contrário da areia, que permite a drenagem da água, a argila é impermeável e instável quando saturada. Este fenómeno cria um ciclo de vulnerabilidade, pois o solo argiloso, ao tornar-se escorregadio e quebradiço, facilita o deslizamento das camadas superiores e acelera a erosão da própria arriba, colocando em risco a flora endémica que se agarra às vertentes.

O que observamos é, na verdade, a Arriba Fóssil a reclamar a sua natureza geológica. Sendo um registo vivo de épocas em que o mar batia directamente contra estas arribas, o cenário actual é um regresso forçado ao passado, mas com a urgência imposta pelas alterações climáticas. A perda do areal não é apenas uma questão estética ou turística; é a remoção da armadura da costa, deixando a "carne" da terra — estas argilas e sedimentos antigos — à mercê da força erosiva das marés, redesenhando o mapa de um dos ecossistemas mais sensíveis de Portugal.

O Recuo do Escudo e a Exposição da Arriba Fóssil na Costa de Caparica 

Esta metamorfose é particularmente dramática na zona da Fonte da Telha, onde a erosão deixou de ser uma estatística abstrata para se tornar uma evidência física avassaladora. Em determinados troços desta praia, a fúria das marés e a escassez de reposição sedimentar resultaram num rebaixamento drástico do areal, com perdas que superam os quatro metros de altura de areia. Onde outrora existia um plano suave e contínuo, restam agora desníveis abruptos que funcionam como uma ferida aberta na paisagem, revelando a anatomia escondida da costa que deveria permanecer protegida.

Este desaparecimento vertical da areia actua como um catalisador de instabilidade, pois ao remover esta "almofada" de quatro metros, o oceano ganha um acesso direto e violento à base da arriba. Sem a protecção do volume arenoso, a base da Arriba Fóssil sofre o impacto directo da ondulação, o que acelera o processo de sapa (erosão de base) e compromete a sustentabilidade de toda a vertente. O afloramento das camadas argilosas profundas, outrora soterradas por toneladas de sedimentos, transforma o solo numa superfície escorregadia e instável, dificultando a fixação da vegetação e colocando em causa a segurança de acessos e infraestruturas que foram projectados para uma cota de praia muito superior. O que vemos na Fonte da Telha é o colapso de uma barreira natural, onde a ausência da areia deixa a arriba exposta a um embate para o qual não está preparada, redesenhando de forma irreversível a fronteira entre a terra e o mar.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O Abismo das Asas


 "A segurança da casca tornou-se o meu maior sufoco. Há momentos em que o mundo se parte para que a vida possa, finalmente, acontecer. Se me vês em pedaços, sabe que não estou a quebrar-me — estou a sair. Renascer dói porque exige que abandonemos a forma que nos habituamos a ter. Mas entre o conforto do ovo e a imensidão do voo, eu escolhi o abismo das asas."

Instalação e Fotografia Zito Colaço

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

"Persona"

Persona (Máscara)

Do latim personare: "soar através de". Uma máscara não serve apenas para esconder; serve para dar uma forma à voz. No contexto das Árvores do Amor, esta instalação explora a tensão entre a identidade protegida e a vulnerabilidade do afecto.

Somos árvores que caminham, usando rostos esculpidos pelo tempo e pelas circunstâncias, à espera do momento em que o amor nos permita, finalmente, deixar cair a máscara e apenas ser.


 Instalação e Fotografias Zito Colaço

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Zito Colaço, na Floresta, com a criançada, à Caça do Tesouro.


Onde o Tesouro é a Própria Vida


Na floresta do Zito, o silêncio não é ausência de som, mas sim uma linguagem que as crianças aprendem a decifrar. Sob a copa das árvores, o tempo abranda. Ali, o Zito não é apenas um guia; é um guardião de histórias que ensina aos mais pequenos que a natureza não é um lugar que se visita, é a nossa casa.


A "caça ao tesouro" começa com o primeiro estalar de ramos sob as botas. Mas, nesta aventura, as moedas de ouro são substituídas por descobertas muito mais valiosas, O brilho do orvalho numa folha de carvalho, O desenho misterioso da casca de um sobreiro, O perfume da terra húmida que guarda as raízes do futuro.


As crianças correm, mas param quando o Zito aponta para o alto. Ele ensina-as a ver o que está invisível aos olhos apressados da cidade. Cada árvore do amor que encontram pelo caminho é um símbolo de resistência e de afeto, uma lição viva de que cuidar da floresta é, no fundo, cuidar de nós mesmos.


Neste passeio, o verdadeiro tesouro não está escondido no final do trilho. Ele revela-se no brilho dos olhos das crianças, na sujidade feliz das mãos que tocam a terra e na certeza de que, enquanto houver quem leve os mais novos pela mão até ao coração do bosque, a floresta continuará a bater forte dentro de todos nós.











segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

"CAPRITTUS" - Instalação e Fotografias de Zito Colaço


LENDA DOS CABRAIS 

BELMONTE


Conta-se que um pastor da zona da Serra da Estrela, ouviu em sonhos três noites seguidas; “Vai a Belém e lá encontrarás o teu bem.” 

Partiu, e quando chegou a Belém, passaram três dias e não encontrava o seu bem. Tomou o caminho de regresso e encontrou um almocreve. O pastor contou-lhe o que se tinha passado, ao que o almocreve respondeu que também tinha sonhado uma coisa parecida; que no sítio de Belmonte, debaixo da penha onde uma cabra amarela e a sua cria, se encontrava uma cabra e um cabrito de ouro. 

O pastor quando chegou a Belmonte removeu um barraco, onde encontrou uma cabra e um cabrito de ouro. Decidiu ir entregar uma das peças ao Rei, dizendo-lhe que tinha uma cabra ou um cabrito para lhe oferecer, qual deles ele preferia. 

O monarca disse que queria o cabrito, que sempre era mais tenro. O pastor ofereceu-lhe o cabrito, ao ver que era de ouro, o Rei disse que se soubesse que era de ouro, tinha escolhido a cabra. 

O pastor ofereceu-lhe também a cabra, contando como tinha encontrado essas oferendas. Como recompensa, o Rei disse ao pastor que subisse ao monte onde encontrou o tesouro, e que lhe oferecia todas as terras que percorresse a cavalo num dia, desde aí”. 

Assim se formou o poderio dos Cabrais, e assim se explicam as duas cabras passantes do seu brasão.





O Cabrito 

Povoaste a paisagem grega, guardas um timbre clássico algo de conciso

Ágil e jovem — quem negaria? — basta ver-te sobre os abismos

sem receio ou vertigem, como a vida.

José Paulo Moreira da Fonseca


 "CAPRITTUS"

Instalação e Fotografias de Zito Colaço
2025

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O Caminho das Oliveiras Milenares da Horta da Moura











HORTA DA MOURA

Deixe-se seduzir

Deixe-se seduzir pelos horizontes largos do Alentejo Interior, onde a tranquilidade da paisagem se funde com o Alqueva.

Num cenário de beleza serena, entre oliveiras milenares, caminhos de sombra e recantos que convidam à contemplação, a Horta da Moura revela-se como um refúgio autêntico.

Aqui, o tempo abranda e os sentidos despertam.

Venha descobrir, saborear e ficar.

E verá como será sempre fácil voltar.

https://www.hortadamoura.com/


 Fotografias Zito Colaço

2014

sábado, 1 de novembro de 2025

A Serpente e a Figueira dos Amores

Figueira dos Amores

Eleita Árvore Portuguesa do Ano 2025, a Figueira dos Amores é uma das exóticas gigantes que se ergue no Jardim da Quinta das Lágrimas, em Coimbra. A sua história terá começado em meados do século XIX, a partir de uma semente vinda da Austrália, um dos países de onde a espécie Ficus macrophylla é nativa.

A história da Quinta das Lágrimas começa muito antes da Figueira dos Amores ter sido plantada. Remonta ao século XIV e o documento mais antigo que se conhece sobre ela data de 1326.

Foi nesse ano que a Rainha Santa Isabel, mulher de D. Dinis, mandou criar um canal para encaminhar a água de duas nascentes para o Convento de Santa Clara. Ao local de onde água brotava deste canal, chamaram depois “Fonte dos Amores”. Conta-se que este nome lhe foi dado por ser junto a esta fonte que o infante D. Pedro e Inês de Castro (aia da mulher do infante, D. Constança) se encontravam secretamente, consolidando um amor proibido que levou, mais tarde, ao assassinato de Inês.


Ao longo dos séculos, os jardins da Quinta das Lágrimas foram-se ampliando e acolhendo novas espécies. Por exemplo, em 1813, o Duque de Wellington, que ajudara Portugal a travar o avanço das tropas de Napoleão, visitou a quinta e, para assinalar o momento, foram plantadas duas sequoias.

Em meados do mesmo século, o filho do dono da Quinta, Miguel Osório Cabral de Castro, mandou construir um “jardim romântico”, com lagos e árvores exóticas e raras, que o microclima húmido desta zona fez prosperar. Mais tarde, o sobrinho D. Duarte de Alarcão Velasquez Sarmento Osório, mandou construir junto à saída de água mandada fazer pela Rainha Santa Isabel uma porta em arco e uma janela neogóticas.

Terá sido por meados do século XIX, numa troca de sementes com o Jardim Botânico de Sidney, na Austrália, que a Figueira dos Amores teve a sua origem, crescendo próxima da Fonte dos Amores e não longe da porta e janela neogóticas.

Muitas outras espécies vindas das mais variadas partes do mundo fazem-lhe companhia no Jardim da Quinta das Lágrimas.

Algumas gigantes ultrapassam-na em altura, como acontece com várias espécies de Araucaria, incluindo uma também australiana – a Araucaria bidwillii, e uma Sequoia sempervirens. Outras, embora menos imponentes em dimensão, impressionam pela beleza da sua floração e pelas nuances de cor que as suas folhas imprimem à paisagem nas diferentes estações do ano. É o caso da Árvore-de-Júpiter (Lagerstroemia indica), do Ginkgo biloba, da magnólia-japonesa (Magnolia x soulangiana) ou do tulipeiro-da-Virgínia (Liriodendron tulipifera).


 A Figueira dos Amores foi eleita como Árvore do Ano 2025, no Concurso realizado em Portugal, com 2713 votos. A candidatura foi feita pela Fundação Inês de Castro. No concurso europeu “Tree of the Year 2025” arrecadou o segundo lugar.

Fotografias Zito Colaço

Árvores do Amor - As Árvores Misteriosas de Portugal

2012

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Oliveira do Mouchão: a árvore mais antiga de Portugal


Oliveira do Mouchão: a árvore mais antiga de Portugal

  A oliveira mais velha de Portugal é a Oliveira do Mouchão, localizada nas proximidades de Mouriscas, Abrantes, com cerca de 3.350 anos. A sua idade foi certificada pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) utilizando um método científico para estimar a idade da árvore. Apesar da sua idade avançada, a árvore continua a produzir azeitonas e é um símbolo cultural da região. 





Nome: Oliveira do Mouchão

Idade: Aproximadamente 3.350 anos

Localização: Perto da vila de Mouriscas, no concelho de Abrantes

Certificação: A idade foi certificada pela UTAD

Características: Tem mais de três metros de altura e um perímetro de tronco de cerca de 6,5 metros.
Status: Classificada como Arvoredo de Interesse Público e Árvore Monumental de Portugal.


Fotografias Zito Colaço