Monstros da Floresta: O Esqueleto da Memória
A floresta, quando arde, não desaparece apenas na fumaça; ela deixa para trás um rasto de sentinelas mudas, esqueletos de um tempo que o fogo tentou apagar. A exposição "Monstros da Floresta" nasce desse território de cinzas, trazendo para o espaço público sete instalações monumentais criadas a partir de troncos gigantes. Estas figuras, que outrora foram o pulmão e a sombra da nossa terra, erguem-se agora como "monstros" — não para assustar, mas para nos confrontar com a escala da perda e a persistência da matéria.
Cada uma destas sete peças é um tributo individual a todas as árvores que sucumbiram aos incêndios. Ao transformarmos estes restos calcinados em esculturas de grande escala, damos rosto ao que era invisível e voz ao que foi silenciado pelas chamas. Estes troncos são a personificação da resiliência; são o corpo físico de uma tragédia que se recusa a ser esquecida. São monstros porque a sua presença é estranha, vasta e impossível de ignorar, exigindo que o espectador reconheça a dignidade daquilo que restou.
Mais do que uma lembrança da destruição, esta exposição é um manifesto sobre a vida para além da morte. É a prova de que a alma da floresta transita, transmuta-se e permanece connosco através da arte. Onde o fogo viu um fim, estas instalações encontram uma nova existência, servindo como um testemunho vivo de que a natureza, mesmo ferida e transformada, guarda em si uma força indomável que transcende o próprio fim. Estes são os nossos monstros: os guardiões da memória e os mensageiros de uma esperança que teima em brotar do carvão.





Nesta jornada entre o que foi e o que permanece, encontramos as sete faces desta resistência:
O Guardião de Ébano: O tronco que se recusa a cair, vigiando o horizonte negro.
A Raiz do Grito: Uma forma retorcida que parece projetar o som da madeira a estalar sob o calor.
O Titã de Carvão: Uma massa imponente que demonstra a força bruta que sobreviveu à combustão.
A Sombra Eterna: Um monumento à ausência da copa, projetando a memória do que já foi frescura.
O Coração Calcinado: Uma peça que revela o interior do tronco, onde a vida resistiu até ao último fôlego.
A Sentinela de Cinza: Uma figura esguia e fantasmagórica que lembra a fragilidade da floresta.
O Renascido: O tronco que, na sua forma final, já parece sugerir novos brotos entre as fendas da pele queimada.

O Lado Oculto da Floresta: Uma Exposição de Dualidades
A floresta portuguesa revela-se nesta exposição como um organismo vivo de contrastes profundos, onde a tragédia da perda e a mística da sobrevivência dialogam num percurso visual arrebatador. Este projecto expositivo, agora disponível para itinerância, apresenta-se como um manifesto de dualidades, unindo a força bruta de sete instalações monumentais — os Monstros da Floresta — à delicadeza enigmática da série fotográfica Árvores do Amor. É um convite para atravessar o espelho da natureza, reconhecendo tanto as cicatrizes deixadas pelo fogo como a magia que ainda habita nos recantos mais misteriosos de Portugal.
No centro da mostra erguem-se os sete "monstros", troncos gigantes resgatados das cinzas que servem como sentinelas físicas de um tempo interrompido. Estas instalações são o corpo presente das árvores que sucumbiram aos incêndios, transformadas pela arte em testemunhos de resiliência que provam existir vida e memória para além da morte. São figuras imponentes que confrontam o espectador com a escala do que perdemos, mas que, na sua postura vertical e escultural, afirmam uma dignidade que o fogo não conseguiu consumir. São o esqueleto de uma resistência que teima em permanecer, transformando o carvão em monumento.
A acompanhar este exército de madeira calcinada, a exposição revela o lado sagrado da nossa flora através das "Árvores do Amor". Estas fotografias captam as árvores misteriosas de Portugal — seres vegetais que, pelas suas formas raras, abraços de ramos ou localizações isoladas, parecem guardar segredos ancestrais. Enquanto os monstros falam da dor e da transmutação, estas imagens celebram o encantamento e a beleza etérea que ainda sobrevive, oferecendo um contraponto de luz e esperança. Juntas, as instalações e as fotografias criam uma experiência imersiva que apela à consciência ambiental e à preservação do nosso património natural, mostrando que a floresta, mesmo ferida, continua a ser um lugar de prodígio.


Texto, Instalações e Fotografias Zito Colaço