quarta-feira, 28 de setembro de 2022

O REENCONTRO


Onde o Tempo se Desfaz em Sal

Havia um pacto silencioso, selado há anos entre as dunas e o vento, que dizia que o mar acaba sempre por devolver o que é seu. Hoje, a Arriba Fóssil da Costa da Caparica não era apenas uma paisagem; era um arquivo aberto, onde cada camada de sedimento parecia guardar um segredo nosso.

O ar estava espesso, saturado por aquela bruma que confunde o horizonte e faz a arriba parecer uma muralha suspensa no tempo. Caminhei com o som rítmico das ondas a servir de metrónomo para a minha ansiedade. As escarpas douradas, esculpidas por milénios de paciência, observavam-me como sentinelas de pedra que tudo sabem, mas nada revelam.

E então, lá estavas tu.

Um vulto recortado contra a espuma branca, algures entre o real e a memória. O reencontro não teve o ruído das palavras apressadas. Teve o peso do mistério — aquele vazio de anos que agora se preenchia apenas com o olhar. Estávamos ali, protegidos pela sombra gigante das arribas, como se o mundo lá fora tivesse parado de girar para nos deixar existir neste parêntese de sal e areia.

"O passado não é um lugar onde se volta, é um eco que se encontra."

A nostalgia bateu forte, como a maré cheia que galga a areia sem pedir licença. Olhámos para cima, para as formas retorcidas da falésia, e percebemos que, tal como a arriba, nós também fomos moldados por tempestades e verões intensos. Mudámos, mas a nossa essência permanece gravada naquelas rochas fósseis.

Nesta praia, onde o mistério do oceano encontra a imobilidade da terra, o nosso reencontro foi o fechar de um ciclo e o início de uma nova erosão. O tempo pode ter passado, mas aqui, entre o grito das gaivotas e o cheiro a maresia, parece que nunca chegámos a partir.












 Fotografias Zito Colaço

domingo, 25 de setembro de 2022

Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica


Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica é uma área protegida criada em 1984 através do Decreto-Lei 168/84 de 22 de Maio, na sequência da instituição da Reserva Botânica da Mata Nacional dos Medos, em 1971. Abrange uma área total de 1570 hectares ao longo da arriba litoral Oeste da Península de Setúbal, estendendo-se pelo concelho de Almada e o de Sesimbra, na faixa litoral entre a Costa de Caparica (a Norte) e a Lagoa de Albufeira (a Sul), passando pelos Capuchos e a Fonte da Telha.


A arriba litoral da Costa de Caparica é denominada arriba fóssil não por serem fossilíferas as camadas de idade miocénica que compõem a sua maior parte, mas por já não se encontrar em contacto direto com o oceano, não sofrendo erosão marinha. As arribas ativas (ou arribas vivas), pelo contrário, como as que podem ser observadas a Sul da Lagoa de Albufeira ou no litoral de Cascais, são as que se encontram sob influência direta da erosão marinha, apresentando o perfil anguloso e o recuo típico deste tipo de arribas.

Nos estratos geológicos de idade miocénica que constituem a Arriba Fóssil podem encontrar-se vários exemplares de fósseis, sobretudo fósseis de organismos invertebrados marinhos, predominando os fósseis de bivalves, de gastrópodes e de equinodermes. Também podem ser encontrados fósseis de vertebrados, fundamentalmente fósseis de dentes de peixes miocénicos.

A área de Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica, como seu nome indica, é uma zona protegida, onde a captura de animais e a recolha de plantas e de fósseis é proibida, sob pena de aplicação de sanções.

Integrados no seu perímetro situam-se a Mata dos Medos e o Pinhal da Aroeira, povoados por pinheiro manso com sabina-das-areias e aroeira.


O símbolo da PPAFCC corresponde a uma vieira (concha), nome comum dado ao género Pecten da classe Lamellibranchiata (classe de moluscos que incluem todos aqueles que possuem conchas bivalves, como as amêijoasostrasmexilhões, etc) dos invertebrados Phylum – Mollusca, nome comum Concha Vieira.



















 Fotografias Zito Colaço