terça-feira, 14 de julho de 2020

"A minha Montanha Amarela"


O Eco Eterno da "Montanha Amarela".


Dizem que as falésias da Costa da Caparica não são apenas de terra e rocha, mas sim as páginas abertas de um diário que o oceano começou a escrever há milhões de anos. Quando o nevoeiro matinal abraça a Arriba Fóssil, a paisagem transforma-se num cenário onde a fronteira entre o presente e o pré-histórico se torna perigosamente ténue. As formas retorcidas dos pinheiros-mansos, vergados pelo vento fustigante do Atlântico, parecem braços estendidos que guardam segredos antigos, enquanto os trilhos de areia dourada levam o viajante a sentir o olhar constante das escarpas. São paredes de tons ocres e avermelhados que mudam de cor conforme a luz, como se a própria terra estivesse viva e a respirar num ritmo demasiado lento para o ouvido humano captar.

Ali, o mar não é um vizinho, é um invasor em trégua que observa, lá do fundo, as conchas e os dentes de tubarão incrustados no alto do precipício — memórias de uma era em que as ondas eram as donas absolutas de onde hoje cresce o mato. Cada estrato geológico é um século silenciado, uma arquitetura de abandono onde o verde profundo da Mata dos Medos contrasta com o laranja vivo da terra rasgada. Há algo de inquietante em tocar na rocha e encontrar o rasto de uma criatura marinha que nunca viu a luz do sol, um testemunho de pedra que nos observa em silêncio. Quando o dia finda e as ravinas projetam sombras que parecem ganhar vida, a Arriba recorda-nos de que somos apenas visitantes passageiros num monumento de poeira e tempo, esperando que o vento decida qual será o próximo segredo a ser revelado pelo desabamento de uma simples areia.




A Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica é uma área protegida criada em 1984 através do Decreto-Lei 168/84 de 22 de Maio, abrangendo uma área total de 1570 hectares ao longo da arriba litoral Oeste da Península de Setúbal, estendendo-se pelo concelho de Almada e o de Sesimbra, na faixa litoral entre a Costa da Caparica (a Norte) e a Lagoa de Albufeira (a Sul), passando pelos Capuchos e a Fonte da Telha. A arriba litoral da Costa de Caparica é denominada arriba fóssil não por serem fossilíferas as camadas de idade miocénica que compõem a sua maior parte, mas por já não se encontrar em contacto direto com o oceano, não sofrendo erosão marinha. As arribas ativas (ou arribas vivas), pelo contrário, como as que podem ser observadas a Sul da Lagoa de Albufeira ou no litoral de Cascais, são as que se encontram sob influência direta da erosão marinha, apresentando o perfil anguloso e o recuo típico deste tipo de arribas. Nos estratos geológicos de idade miocénica que constituem a Arriba Fóssil podem encontrar-se vários exemplares de fósseis, sobretudo fósseis de organismos invertebrados marinhos, predominando os fósseis de bivalves, de gastrópodes e de equinodermes. Também podem ser encontrados fósseis de vertebrados, fundamentalmente fósseis de dentes de peixes miocénicos. A área de Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica, como seu nome indica, é uma zona protegida, onde a captura de animais e a recolha de plantas e de fósseis é proibida, sob pena de aplicação de sanções. Junto a esta área situam-se a Mata dos Medos e o Pinhal da Aroeira, povoados por pinheiro manso com sabina-das-areias e aroeira.













O Trilho da Luz Eterna

O sol começa a descer, tingindo o horizonte com uma paleta de brasas, e o caminhar à beira-mar transforma-se num ritual de despedida do dia. Com os pés descalços a serem batizados pela espuma fria das últimas ondas, o ritmo dos passos funde-se com o pulsar constante do Atlântico. É neste momento que a Arriba Fóssil reclama todo o protagonismo. A luz oblíqua do entardecer incide sobre as escarpas, acendendo o que antes era apenas terra em tons de um laranja vibrante e quase irreal. A Montanha Amarela parece arder sem se consumir, transformando cada sulco e cada saliência geológica num relevo de sombras profundas e texturas douradas.

Enquanto a brisa traz o cheiro a maresia e a pinhal, o olhar perde-se na imensidão daquela muralha de areia e tempo. Há uma paz estranha e magnética no contraste entre o azul profundo do oceano que recua e o calor visual das arribas que parecem guardar o calor do sol. Caminhar ali, entre o rugido suave do mar e o silêncio mineral das falésias, é sentir a escala do mundo; é ver a luz transformar a rocha antiga num cenário de sonho, onde o laranja se funde com o violeta do céu, antes que a noite recolha todas as cores e deixe apenas o eco das ondas contra a base daquela sentinela eterna.



Mistério da Praia dos Olhos de Água

Nas entranhas da Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica, onde as falésias imponentes guardam memórias geológicas de milhões de anos, esconde-se um lugar que parece desafiar a própria natureza do oceano: a Praia dos Olhos de Água. Sob a sombra das escarpas ocres e retorcidas pelo tempo, o cenário ganha contornos de mistério quando a maré recua, revelando um segredo que brota diretamente das profundezas da terra. Na areia húmida, pequenas nascentes de água doce surgem como olhos cristalinos que observam o Atlântico, borbulhando silenciosamente entre os grãos de quartzo e as conchas partidas. É o fenómeno das "nascentes de vertente", águas puras que viajaram por aquíferos invisíveis através das camadas de rocha sedimentar até encontrarem a liberdade na linha de costa. Quem caminha por estas paragens sente o peso da pré-história nos fósseis incrustados nas paredes de pedra e a estranha sensação de que a terra está viva e a respirar sob os seus pés. Ali, o encontro da água doce e gelada com a imensidão salgada do mar cria uma atmosfera densa e intemporal, onde o sussurro das fontes parece contar histórias de um mundo antigo que a civilização, ali tão perto, ainda não conseguiu silenciar.










PRAIA DOS OLHOS DE ÁGUA

Esta Praia Oceânica fica situada na Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica, na costa Oeste de Portugal.

A Praia dos Olhos de Água tem um areal extenso. Na zona central, numa reentrância da Arriba Fóssil, existe uma nascente de água doce que deu origem ao seu nome.
Esta é uma praia isolada procurada por muitos amantes da natureza.
O acesso pode ser feiro através dos areais das praias vizinhas, pela Praia da Fonte da Telha a Norte,  Praia da Lagoa de Albufeira a Sul, ou pelo topo da Arriba Fóssil, através de um trilho que se inicia do lado Norte junto à NATO perto da Fonte da Telha.

Fotografias Zito Colaço

1 comentário: