domingo, 26 de abril de 2026

"Z: Onde a Floresta Cortada se Torna Assinatura e Alerta"


"Z: Onde a Floresta Cortada se Torna Assinatura e Alerta"

A gestão de material combustível tornou-se a bandeira prioritária das políticas florestais recentes, mas a sua aplicação prática tem gerado um desconforto crescente na sociedade civil. Sob o pretexto legítimo de evitar a propagação de grandes incêndios e garantir a segurança de pessoas e bens, temos assistido a intervenções mecânicas profundas que, em muitos casos, se assemelham mais a uma descaracterização da paisagem do que a uma limpeza preventiva. O problema não reside na intenção, mas na falta de critério e na brutalidade com que muitas destas faixas de gestão são executadas.

Ao abater árvores de forma indiscriminada para cumprir distâncias métricas rígidas, ignora-se frequentemente a função vital que a cobertura arbórea desempenha no microclima local. Uma árvore de grande porte, especialmente se for uma espécie autóctone de folha caduca, funciona como um arrefecedor natural e um retentor de humidade. Quando removemos essa cobertura, expomos o solo directamente à radiação solar, eliminamos o efeito de quebra-vento e promovemos o crescimento acelerado de matos e espécies invasoras que, por serem mais finas e secas, ardem com uma velocidade muito superior à de uma árvore viva e saudável.

Esta abordagem puramente geométrica da floresta — onde tudo o que está a uma determinada distância de uma estrada ou edifício deve desaparecer — ignora a complexidade dos ecossistemas. O resultado é, muitas vezes, a criação de corredores desolados que, embora facilitem a passagem de veículos de combate, contribuem para a erosão do solo e para a perda de biodiversidade. A verdadeira prevenção deveria passar por uma silvicultura selectiva e inteligente, que soubesse distinguir o combustível perigoso da estrutura arbórea que protege o território. Enquanto a gestão de combustível for vista apenas como uma tarefa de engenharia mecânica e não como um ato de cuidado ecológico, continuaremos a sacrificar o nosso património natural em nome de uma segurança que, ironicamente, pode tornar a paisagem mais árida e vulnerável no longo prazo.




Contudo, perante a crueza destes abates e o rasto de madeira deixado para trás, surge a necessidade de resgatar a dignidade daquilo que foi cortado. Transformar o "entulho" da gestão de combustível em algo contemplativo é uma forma de processar a perda e de manter viva a memória da árvore. Foi precisamente nesse espaço entre o corte e o esquecimento que decidi intervir, utilizando os toros de um pinheiro-bravo — outrora parte da mancha verde local e agora condenado ao abandono — para criar uma instalação que devolve à madeira o seu lugar de destaque no olhar de quem passa.

A instalação nasce da geometria bruta de um pinheiro-bravo que sucumbiu à motosserra. Em vez de permitir que aqueles troncos fossem reduzidos a estilha ou esquecidos num terreno qualquer, decidi reorganizá-los, explorando as texturas da casca rugosa e os anéis de crescimento que contam a história das décadas em que aquela árvore resistiu ao vento e ao sol. Ao dispor os toros de forma deliberada, a obra cria um diálogo directo com o espaço onde o pinheiro antes se erguia; é um eco estrutural do que ali existia.

A escolha do pinheiro-bravo não é apenas estética, mas carregada de simbolismo, sendo esta uma das espécies mais fustigadas tanto pelos incêndios como pelas políticas de abate. Na instalação, a resina que ainda exsuda da madeira funciona como uma cicatriz fresca, e o aroma característico do pinho invade o ar, lembrando-nos da presença física da floresta que estamos a moldar à nossa vontade. Ao transformar material combustível em matéria artística, a peça convida o observador a parar e a reflectir: o que perdemos quando limpamos? E o que podemos salvar quando decidimos olhar para a madeira não como lenha, mas como memória?






A instalação nasce da geometria bruta de um pinheiro-bravo que sucumbiu à motosserra, mas ganha o seu propósito final na forma como os toros são dispostos no terreno. Desenhei no chão um "Z" monumental, uma forma que carrega um triplo simbolismo e que serve de bússola para esta intervenção.

Em primeiro lugar, este "Z" é um apelo directo à Geração Z. É um aviso visual, um sinal de alerta de que o futuro do nosso património natural exige uma atenção renovada e um cuidado muito mais profundo do que aquele que temos praticado. Numa era de gratificação instantânea e ecrãs omnipresentes, a obra convida os mais jovens a largarem o vício do mundo digital e a regressarem à floresta. O objectivo é que utilizem o contacto directo com a terra e o cheiro da resina como um regulador biológico, encontrando no silêncio dos troncos o equilíbrio que o ruído da internet muitas vezes lhes rouba.

Ao mesmo tempo, esta disposição em "Z" é uma afirmação de autoria. Sendo a minha assinatura artística, ela marca o território com a responsabilidade de quem não se limita a observar a destruição, mas que escolhe transformar a perda em pensamento. Os toros, que outrora eram apenas números numa contagem de gestão de combustível, tornam-se agora linhas de um alfabeto que nos liga de novo à vida selvagem. No final, o "Z" no chão da floresta é um convite à visita física: para entender a natureza, é preciso estar nela, senti-la sob os pés e reconhecer que a nossa sobrevivência, tanto física como mental, depende da preservação deste caos verde.






 Instalação e Fotografias de Zito Colaço

segunda-feira, 13 de abril de 2026

O beijo da árvore ao lago


O beijo da árvore ao lago

Há algo de profundamente sagrado no modo como os ramos se inclinam sobre a água, como se o mundo inteiro fosse apenas um segredo sussurrado entre a margem e o espelho. É um romance que não conhece a pressa, medido não em minutos, mas em estações, onde o tempo parece curvar-se no ponto exacto onde a madeira toca a superfície. O beijo da árvore ao lago é o gesto mais antigo da natureza, um encontro de almas onde a copa, cansada de sustentar o céu, encontra finalmente o seu descanso na frescura da água. Quem observa de longe sente uma pontada de nostalgia, uma saudade de um tempo em que também sabíamos ser silêncio e entrega. A árvore olha para baixo e vê a sua própria história reflectida; cada nó na sua casca é uma cicatriz e cada ondulação é um eco de uma carícia antiga. Quando o vento sopra, as extremidades mais finas arrastam-se suavemente pela face do lago, escrevendo poemas efémeros em círculos concêntricos que viajam até à margem. É no outono que este beijo atinge a sua despedida mais doce, quando uma folha se solta, flutua no ar e pousa, finalmente, nos lábios do lago como uma promessa de retorno. O lago aceita a árvore sem perguntas e a árvore protege o lago sem condições, formando uma imagem que fica gravada na memória como uma fotografia antiga, amarelada pelo sol, mas ainda vibrante com o som do balanço da folhagem. É um lembrete silencioso de que a maior força do mundo reside na delicadeza de um toque que, embora mudo, nunca termina.

Fotografia Zito Colaço

 

A Seriedade.


A Seriedade. 

Esse conceito fascinante e, sejamos sinceros, ligeiramente patológico. Num mundo onde o caos é a única constante e a lógica foi de férias para um destino incerto — provavelmente um paraíso fiscal — há quem ainda insista em usar gravata e manter um semblante austero como se estivesse a guardar as chaves do universo. É, no mínimo, admirável; quase como tentar organizar alfabeticamente uma biblioteca enquanto o edifício arde, ou polir a prataria num navio que já se inclina num ângulo de 45 graus em direção ao fundo do oceano.

Viver com seriedade hoje em dia requer um esforço hercúleo de negação. É preciso manter aquela expressão de quem está a calcular o IVA de uma transação inexistente, mesmo quando o mundo à volta parece um filme do Salvador Dalí editado por alguém que abusou no café. O "adulto sensato" é aquele que faz planos estratégicos a cinco anos, ignorando olimpicamente que não sabemos sequer se a próxima semana será cancelada por falta de orçamento ou por uma invasão de pirilampos gigantes. É um bailado absurdo onde se fala de "sinergias" e "otimização de paradigmas" com uma voz de conferencista, enquanto, lá fora, a realidade comunica exclusivamente através de memes de gatos com crises existenciais.

O verdadeiro paradoxo é que as pessoas "sérias" são as que parecem estar sempre a um milímetro de um esgotamento nervoso. E é compreensível: manter a postura de peça funcional de engrenagem enquanto se vive numa rocha que gira a mil quilómetros por hora no vácuo, rodeado de gente que acredita que a Terra é plana ou que o ananás é um ingrediente legítimo para pizza, é um desporto de alto risco. Não há nada mais ironicamente trágico do que um executivo num elevador, a conferir o relógio com uma urgência dramática, como se o destino da civilização dependesse da sua pontualidade para uma reunião sobre o novo design de clips de papel.

No fundo, num planeta onde o surrealismo se tornou o telejornal das oito, ser excessivamente sério é talvez a forma mais bizarra de demência. É como ir de smoking para uma batalha de comida: vais acabar coberto de puré de batata na mesma, mas vais parecer muito mais ridículo a tentar manter a dignidade enquanto limpas o molho da lapela. Da próxima vez que encontrares alguém com o peso do mundo nos ombros, não te assustes; tem apenas paciência. É apenas mais um pobre coitado a tentar ganhar um braço de ferro contra o Infinito — e o Infinito, como todos sabemos, tem um sentido de humor muito peculiar e uma pontaria impecável para nos atirar tartes à cara.






 Fotografias Tiago Frazão

O Abate da Natureza e o Deserto dos Afetos


Onde as Raízes Morrem
O Abate da Natureza e o Deserto dos Afectos

O som de uma árvore a tombar é um dos ecos mais tristes da modernidade, carregando consigo a melancolia de um ciclo interrompido. Por vezes, a queda é o resultado inevitável das leis da natureza, onde o tempo e a tempestade ditam o fim. No entanto, é no abate desnecessário, executado por mãos frias e decisões burocráticas, que reside a verdadeira tragédia. Cortam-se árvores por conveniência, por uma estética de cimento ou simplesmente porque a vida dá trabalho e exige cuidado. Este cenário de erosão ambiental encontra um paralelo assustador na forma como o amor tem sido tratado na nossa sociedade. Assistimos a um abate emocional sistemático, onde casais e indivíduos desistem de raízes profundas perante a primeira folha que seca ou o primeiro galho que incomoda. Tal como as entidades que preferem o chão limpo e estéril à complexidade de um jardim, muitas pessoas preferem o isolamento ou a superficialidade ao esforço da manutenção afetiva. O amor, que deveria ser a árvore que nos dá oxigénio e sombra contra as agressividades do mundo, está a tornar-se uma espécie em extinção em muitos corações. Vivemos na era do descarte, onde a paciência de regar e esperar o tempo da flor é substituída pela pressa de pavimentar o sentimento, deixando as relações despidas de abrigo. Quando perdemos uma árvore por negligência, a paisagem morre um pouco; quando permitimos que o amor se apague por egoísmo ou falta de entrega, é a nossa própria humanidade que arrefece. No fim, resta-nos um mundo de ruas áridas e olhares vazios, onde o cinzento do betão e a frieza do desapego se tornam a norma, esquecendo-nos de que tanto a terra como o peito precisam de raízes vivas para que a vida tenha, de facto, algum sentido.


Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica
Fotografia Zito Colaço