Onde o Tempo se Desfaz em Sal
Havia um pacto silencioso, selado há anos entre as dunas e o vento, que dizia que o mar acaba sempre por devolver o que é seu. Hoje, a Arriba Fóssil da Costa da Caparica não era apenas uma paisagem; era um arquivo aberto, onde cada camada de sedimento parecia guardar um segredo nosso.
O ar estava espesso, saturado por aquela bruma que confunde o horizonte e faz a arriba parecer uma muralha suspensa no tempo. Caminhei com o som rítmico das ondas a servir de metrónomo para a minha ansiedade. As escarpas douradas, esculpidas por milénios de paciência, observavam-me como sentinelas de pedra que tudo sabem, mas nada revelam.
E então, lá estavas tu.
Um vulto recortado contra a espuma branca, algures entre o real e a memória. O reencontro não teve o ruído das palavras apressadas. Teve o peso do mistério — aquele vazio de anos que agora se preenchia apenas com o olhar. Estávamos ali, protegidos pela sombra gigante das arribas, como se o mundo lá fora tivesse parado de girar para nos deixar existir neste parêntese de sal e areia.
"O passado não é um lugar onde se volta, é um eco que se encontra."
A nostalgia bateu forte, como a maré cheia que galga a areia sem pedir licença. Olhámos para cima, para as formas retorcidas da falésia, e percebemos que, tal como a arriba, nós também fomos moldados por tempestades e verões intensos. Mudámos, mas a nossa essência permanece gravada naquelas rochas fósseis.
Nesta praia, onde o mistério do oceano encontra a imobilidade da terra, o nosso reencontro foi o fechar de um ciclo e o início de uma nova erosão. O tempo pode ter passado, mas aqui, entre o grito das gaivotas e o cheiro a maresia, parece que nunca chegámos a partir.
Fotografias Zito Colaço
Sem comentários:
Enviar um comentário