LENDA DOS CABRAIS
BELMONTE
Conta-se que um pastor da zona da Serra da Estrela, ouviu em sonhos três noites seguidas; “Vai a Belém e lá encontrarás o teu bem.”
Partiu, e quando chegou a Belém, passaram três dias e não encontrava o seu bem. Tomou o caminho de regresso e encontrou um almocreve. O pastor contou-lhe o que se tinha passado, ao que o almocreve respondeu que também tinha sonhado uma coisa parecida; que no sítio de Belmonte, debaixo da penha onde uma cabra amarela e a sua cria, se encontrava uma cabra e um cabrito de ouro.
O pastor quando chegou a Belmonte removeu um barraco, onde encontrou uma cabra e um cabrito de ouro. Decidiu ir entregar uma das peças ao Rei, dizendo-lhe que tinha uma cabra ou um cabrito para lhe oferecer, qual deles ele preferia.
O monarca disse que queria o cabrito, que sempre era mais tenro. O pastor ofereceu-lhe o cabrito, ao ver que era de ouro, o Rei disse que se soubesse que era de ouro, tinha escolhido a cabra.
O pastor ofereceu-lhe também a cabra, contando como tinha encontrado essas oferendas. Como recompensa, o Rei disse ao pastor que subisse ao monte onde encontrou o tesouro, e que lhe oferecia todas as terras que percorresse a cavalo num dia, desde aí”.
Assim se formou o poderio dos Cabrais, e assim se explicam as duas cabras passantes do seu brasão.


Lenda, Sonho e Projecto de Escola da Natureza
Diz a lenda que o pastor de Belmonte não encontrou o seu ouro nas terras distantes de Belém, mas sim no regresso a casa, escondido sob a penha que o sol da Serra da Estrela aquecia. Ele teve a visão, a audácia de caminhar e a generosidade de oferecer o que descobriu, transformando um sonho em herança e território. Hoje, interrogo o universo com a mesma esperança desse pastor: será este o momento em que as vozes que sopram o projeto Árvores do Amor encontram, finalmente, o seu chão? Se o tesouro estava guardado no sopé do monte à espera de quem o soubesse ver, estarei eu prestes a encontrar a terra onde as raízes da nossa Escola da Natureza se irão entrelaçar? Talvez o meu Belém tenha sido o tempo de espera e de maturação, e o meu Belmonte seja o aqui e o agora, o lugar onde a pedra se move para revelar o propósito. Pergunto aos astros se o cavalo que delimitou o poderio dos Cabrais corre hoje por mim, desenhando no horizonte os limites de um novo reino — não um de posses, mas de educação, amor e regeneração. Universo, haverá um destino generoso pronto a reconhecer o valor deste ouro que não brilha, mas que respira, cresce e dá sombra? Tal como o pastor que removeu o barraco para revelar o cabrito de ouro, sigo removendo as pedras da incerteza, aguardando que a terra se abra para que o meu "bem" se cumpra. Que o brasão deste novo tempo não seja de metal precioso, mas de árvores vivas, e que a terra prometida surja agora, pois o sonho já se repetiu no meu peito muito mais do que três noites.



Instalação Zito Colaço e Irina.
Fotografias Zito Colaço
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