PONTA DOS CORVOS
A praia guardada pelo tempo
Na margem sul do Tejo, onde o rio desacelera para se fazer ao mar, a Ponta dos Corvos sempre se ergueu como um refúgio guardado pelo tempo, um areal discreto na Baía do Seixal que carrega o bafo salgado da infância e a tranquilidade dos dias sem pressa. Quem ali caminha sente o peso suave de uma memória antiga: o murmúrio das águas calmas, os cascos dos barcos de madeira a ranger suavemente ao sabor do vento e a silhueta distante de Lisboa, envolta numa névoa dourada que parece suspender as horas e convidar à contemplação.
Troncos Flutuantes e a Navegação dos Sentidos
É neste cenário mágico, e no âmbito do projecto Árvores do Amor, que a Praia da Ponta dos Corvos ganhou uma vida nova na minha jornada, tornando-se um dos meus principais locais de recolha de matéria-prima. Este areal transformou-se no atelier natural do qual extraio a essência para o meu novo trabalho artístico, focado em troncos e árvores mortas que flutuam entre continentes.
Ali, onde no passado se construíam as embarcações e as caravelas que tornaram possíveis os Descobrimentos portugueses, a água continua a carregar o eco de viagens distantes. Cada pedaço de madeira devolvido pelas marés evoca a memória desses barcos lendários e traz consigo uma biografia secreta, moldada pela erosão do sal e do tempo, como mensageiros silenciosos que navegaram de paragens longínquas para ganhar forma, alma e eternidade através das minhas mãos nesta praia.
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