segunda-feira, 13 de abril de 2026

O beijo da árvore ao lago


O beijo da árvore ao lago

Há algo de profundamente sagrado no modo como os ramos se inclinam sobre a água, como se o mundo inteiro fosse apenas um segredo sussurrado entre a margem e o espelho. É um romance que não conhece a pressa, medido não em minutos, mas em estações, onde o tempo parece curvar-se no ponto exacto onde a madeira toca a superfície. O beijo da árvore ao lago é o gesto mais antigo da natureza, um encontro de almas onde a copa, cansada de sustentar o céu, encontra finalmente o seu descanso na frescura da água. Quem observa de longe sente uma pontada de nostalgia, uma saudade de um tempo em que também sabíamos ser silêncio e entrega. A árvore olha para baixo e vê a sua própria história reflectida; cada nó na sua casca é uma cicatriz e cada ondulação é um eco de uma carícia antiga. Quando o vento sopra, as extremidades mais finas arrastam-se suavemente pela face do lago, escrevendo poemas efémeros em círculos concêntricos que viajam até à margem. É no outono que este beijo atinge a sua despedida mais doce, quando uma folha se solta, flutua no ar e pousa, finalmente, nos lábios do lago como uma promessa de retorno. O lago aceita a árvore sem perguntas e a árvore protege o lago sem condições, formando uma imagem que fica gravada na memória como uma fotografia antiga, amarelada pelo sol, mas ainda vibrante com o som do balanço da folhagem. É um lembrete silencioso de que a maior força do mundo reside na delicadeza de um toque que, embora mudo, nunca termina.

Fotografia Zito Colaço

 

A Seriedade.


A Seriedade. 

Esse conceito fascinante e, sejamos sinceros, ligeiramente patológico. Num mundo onde o caos é a única constante e a lógica foi de férias para um destino incerto — provavelmente um paraíso fiscal — há quem ainda insista em usar gravata e manter um semblante austero como se estivesse a guardar as chaves do universo. É, no mínimo, admirável; quase como tentar organizar alfabeticamente uma biblioteca enquanto o edifício arde, ou polir a prataria num navio que já se inclina num ângulo de 45 graus em direção ao fundo do oceano.

Viver com seriedade hoje em dia requer um esforço hercúleo de negação. É preciso manter aquela expressão de quem está a calcular o IVA de uma transação inexistente, mesmo quando o mundo à volta parece um filme do Salvador Dalí editado por alguém que abusou no café. O "adulto sensato" é aquele que faz planos estratégicos a cinco anos, ignorando olimpicamente que não sabemos sequer se a próxima semana será cancelada por falta de orçamento ou por uma invasão de pirilampos gigantes. É um bailado absurdo onde se fala de "sinergias" e "otimização de paradigmas" com uma voz de conferencista, enquanto, lá fora, a realidade comunica exclusivamente através de memes de gatos com crises existenciais.

O verdadeiro paradoxo é que as pessoas "sérias" são as que parecem estar sempre a um milímetro de um esgotamento nervoso. E é compreensível: manter a postura de peça funcional de engrenagem enquanto se vive numa rocha que gira a mil quilómetros por hora no vácuo, rodeado de gente que acredita que a Terra é plana ou que o ananás é um ingrediente legítimo para pizza, é um desporto de alto risco. Não há nada mais ironicamente trágico do que um executivo num elevador, a conferir o relógio com uma urgência dramática, como se o destino da civilização dependesse da sua pontualidade para uma reunião sobre o novo design de clips de papel.

No fundo, num planeta onde o surrealismo se tornou o telejornal das oito, ser excessivamente sério é talvez a forma mais bizarra de demência. É como ir de smoking para uma batalha de comida: vais acabar coberto de puré de batata na mesma, mas vais parecer muito mais ridículo a tentar manter a dignidade enquanto limpas o molho da lapela. Da próxima vez que encontrares alguém com o peso do mundo nos ombros, não te assustes; tem apenas paciência. É apenas mais um pobre coitado a tentar ganhar um braço de ferro contra o Infinito — e o Infinito, como todos sabemos, tem um sentido de humor muito peculiar e uma pontaria impecável para nos atirar tartes à cara.






 Fotografias Tiago Frazão

O Abate da Natureza e o Deserto dos Afetos


Onde as Raízes Morrem
O Abate da Natureza e o Deserto dos Afectos

O som de uma árvore a tombar é um dos ecos mais tristes da modernidade, carregando consigo a melancolia de um ciclo interrompido. Por vezes, a queda é o resultado inevitável das leis da natureza, onde o tempo e a tempestade ditam o fim. No entanto, é no abate desnecessário, executado por mãos frias e decisões burocráticas, que reside a verdadeira tragédia. Cortam-se árvores por conveniência, por uma estética de cimento ou simplesmente porque a vida dá trabalho e exige cuidado. Este cenário de erosão ambiental encontra um paralelo assustador na forma como o amor tem sido tratado na nossa sociedade. Assistimos a um abate emocional sistemático, onde casais e indivíduos desistem de raízes profundas perante a primeira folha que seca ou o primeiro galho que incomoda. Tal como as entidades que preferem o chão limpo e estéril à complexidade de um jardim, muitas pessoas preferem o isolamento ou a superficialidade ao esforço da manutenção afetiva. O amor, que deveria ser a árvore que nos dá oxigénio e sombra contra as agressividades do mundo, está a tornar-se uma espécie em extinção em muitos corações. Vivemos na era do descarte, onde a paciência de regar e esperar o tempo da flor é substituída pela pressa de pavimentar o sentimento, deixando as relações despidas de abrigo. Quando perdemos uma árvore por negligência, a paisagem morre um pouco; quando permitimos que o amor se apague por egoísmo ou falta de entrega, é a nossa própria humanidade que arrefece. No fim, resta-nos um mundo de ruas áridas e olhares vazios, onde o cinzento do betão e a frieza do desapego se tornam a norma, esquecendo-nos de que tanto a terra como o peito precisam de raízes vivas para que a vida tenha, de facto, algum sentido.


Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica
Fotografia Zito Colaço