Onde as Raízes Morrem
O Abate da Natureza e o Deserto dos Afectos
O som de uma árvore a tombar é um dos ecos mais tristes da modernidade, carregando consigo a melancolia de um ciclo interrompido. Por vezes, a queda é o resultado inevitável das leis da natureza, onde o tempo e a tempestade ditam o fim. No entanto, é no abate desnecessário, executado por mãos frias e decisões burocráticas, que reside a verdadeira tragédia. Cortam-se árvores por conveniência, por uma estética de cimento ou simplesmente porque a vida dá trabalho e exige cuidado. Este cenário de erosão ambiental encontra um paralelo assustador na forma como o amor tem sido tratado na nossa sociedade. Assistimos a um abate emocional sistemático, onde casais e indivíduos desistem de raízes profundas perante a primeira folha que seca ou o primeiro galho que incomoda. Tal como as entidades que preferem o chão limpo e estéril à complexidade de um jardim, muitas pessoas preferem o isolamento ou a superficialidade ao esforço da manutenção afetiva. O amor, que deveria ser a árvore que nos dá oxigénio e sombra contra as agressividades do mundo, está a tornar-se uma espécie em extinção em muitos corações. Vivemos na era do descarte, onde a paciência de regar e esperar o tempo da flor é substituída pela pressa de pavimentar o sentimento, deixando as relações despidas de abrigo. Quando perdemos uma árvore por negligência, a paisagem morre um pouco; quando permitimos que o amor se apague por egoísmo ou falta de entrega, é a nossa própria humanidade que arrefece. No fim, resta-nos um mundo de ruas áridas e olhares vazios, onde o cinzento do betão e a frieza do desapego se tornam a norma, esquecendo-nos de que tanto a terra como o peito precisam de raízes vivas para que a vida tenha, de facto, algum sentido.
Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de CaparicaFotografia Zito Colaço
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