segunda-feira, 13 de abril de 2026

O beijo da árvore ao lago


O beijo da árvore ao lago

Há algo de profundamente sagrado no modo como os ramos se inclinam sobre a água, como se o mundo inteiro fosse apenas um segredo sussurrado entre a margem e o espelho. É um romance que não conhece a pressa, medido não em minutos, mas em estações, onde o tempo parece curvar-se no ponto exacto onde a madeira toca a superfície. O beijo da árvore ao lago é o gesto mais antigo da natureza, um encontro de almas onde a copa, cansada de sustentar o céu, encontra finalmente o seu descanso na frescura da água. Quem observa de longe sente uma pontada de nostalgia, uma saudade de um tempo em que também sabíamos ser silêncio e entrega. A árvore olha para baixo e vê a sua própria história reflectida; cada nó na sua casca é uma cicatriz e cada ondulação é um eco de uma carícia antiga. Quando o vento sopra, as extremidades mais finas arrastam-se suavemente pela face do lago, escrevendo poemas efémeros em círculos concêntricos que viajam até à margem. É no outono que este beijo atinge a sua despedida mais doce, quando uma folha se solta, flutua no ar e pousa, finalmente, nos lábios do lago como uma promessa de retorno. O lago aceita a árvore sem perguntas e a árvore protege o lago sem condições, formando uma imagem que fica gravada na memória como uma fotografia antiga, amarelada pelo sol, mas ainda vibrante com o som do balanço da folhagem. É um lembrete silencioso de que a maior força do mundo reside na delicadeza de um toque que, embora mudo, nunca termina.

Fotografia Zito Colaço

 

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