segunda-feira, 13 de abril de 2026

A Seriedade.


A Seriedade. 

Esse conceito fascinante e, sejamos sinceros, ligeiramente patológico. Num mundo onde o caos é a única constante e a lógica foi de férias para um destino incerto — provavelmente um paraíso fiscal — há quem ainda insista em usar gravata e manter um semblante austero como se estivesse a guardar as chaves do universo. É, no mínimo, admirável; quase como tentar organizar alfabeticamente uma biblioteca enquanto o edifício arde, ou polir a prataria num navio que já se inclina num ângulo de 45 graus em direção ao fundo do oceano.

Viver com seriedade hoje em dia requer um esforço hercúleo de negação. É preciso manter aquela expressão de quem está a calcular o IVA de uma transação inexistente, mesmo quando o mundo à volta parece um filme do Salvador Dalí editado por alguém que abusou no café. O "adulto sensato" é aquele que faz planos estratégicos a cinco anos, ignorando olimpicamente que não sabemos sequer se a próxima semana será cancelada por falta de orçamento ou por uma invasão de pirilampos gigantes. É um bailado absurdo onde se fala de "sinergias" e "otimização de paradigmas" com uma voz de conferencista, enquanto, lá fora, a realidade comunica exclusivamente através de memes de gatos com crises existenciais.

O verdadeiro paradoxo é que as pessoas "sérias" são as que parecem estar sempre a um milímetro de um esgotamento nervoso. E é compreensível: manter a postura de peça funcional de engrenagem enquanto se vive numa rocha que gira a mil quilómetros por hora no vácuo, rodeado de gente que acredita que a Terra é plana ou que o ananás é um ingrediente legítimo para pizza, é um desporto de alto risco. Não há nada mais ironicamente trágico do que um executivo num elevador, a conferir o relógio com uma urgência dramática, como se o destino da civilização dependesse da sua pontualidade para uma reunião sobre o novo design de clips de papel.

No fundo, num planeta onde o surrealismo se tornou o telejornal das oito, ser excessivamente sério é talvez a forma mais bizarra de demência. É como ir de smoking para uma batalha de comida: vais acabar coberto de puré de batata na mesma, mas vais parecer muito mais ridículo a tentar manter a dignidade enquanto limpas o molho da lapela. Da próxima vez que encontrares alguém com o peso do mundo nos ombros, não te assustes; tem apenas paciência. É apenas mais um pobre coitado a tentar ganhar um braço de ferro contra o Infinito — e o Infinito, como todos sabemos, tem um sentido de humor muito peculiar e uma pontaria impecável para nos atirar tartes à cara.






 Fotografias Tiago Frazão

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