O cenário actual ao longo da linha de costa, que se estende da Caparica até à Fonte da Telha, revela a força avassaladora de um oceano em constante reconquista. É como se, a cada tempestade, o mar espreitasse as fragilidades da terra para depois fazer seguir o seu avanço implacável. Este inverno, marcado por sucessivas intempéries e uma agitação marítima particularmente agressiva, deixou a descoberto a extrema vulnerabilidade da orla costeira da Península de Setúbal, transformando a paisagem num testemunho de erosão acelerada.
A remoção de areia atingiu níveis alarmantes, deixando as praias despidas da sua proteção natural. Sem o volume sedimentar necessário para dissipar a energia das ondas, a força das águas atinge diretamente a base das dunas, provocando o recuo da linha de costa a um ritmo difícil de ignorar. Este défice de sedimentos resulta de uma combinação complexa entre as alterações climáticas — que elevam o nível médio do mar e aumentam a frequência de eventos extremos — e a intervenção humana, que ao longo de décadas alterou o ciclo natural de transporte de areias que deveria alimentar estas praias.
As consequências são visíveis e desoladoras nas infraestruturas de apoio ao longo de toda a extensão costeira. Bares, esplanadas e passadiços, que durante o verão servem de suporte ao lazer, transformaram-se em estruturas fragilizadas, muitas vezes reduzidas a esqueletos de madeira e betão vergados pela força dos elementos. O galgamento costeiro destruiu fundações e invadiu espaços interiores, provando que a fronteira entre o urbanismo e o oceano está cada vez mais ténue. A destruição destes apoios de praia serve como um lembrete visual da fragilidade das construções humanas perante o dinamismo de um sistema natural que não reconhece limites, evidenciando um território em profunda mutação onde a gestão costeira enfrenta agora desafios sem precedentes.
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