"Z: Onde a Floresta Cortada se Torna Assinatura e Alerta"
A gestão de material combustível tornou-se a bandeira prioritária das políticas florestais recentes, mas a sua aplicação prática tem gerado um desconforto crescente na sociedade civil. Sob o pretexto legítimo de evitar a propagação de grandes incêndios e garantir a segurança de pessoas e bens, temos assistido a intervenções mecânicas profundas que, em muitos casos, se assemelham mais a uma descaracterização da paisagem do que a uma limpeza preventiva. O problema não reside na intenção, mas na falta de critério e na brutalidade com que muitas destas faixas de gestão são executadas.
Ao abater árvores de forma indiscriminada para cumprir distâncias métricas rígidas, ignora-se frequentemente a função vital que a cobertura arbórea desempenha no microclima local. Uma árvore de grande porte, especialmente se for uma espécie autóctone de folha caduca, funciona como um arrefecedor natural e um retentor de humidade. Quando removemos essa cobertura, expomos o solo directamente à radiação solar, eliminamos o efeito de quebra-vento e promovemos o crescimento acelerado de matos e espécies invasoras que, por serem mais finas e secas, ardem com uma velocidade muito superior à de uma árvore viva e saudável.
Esta abordagem puramente geométrica da floresta — onde tudo o que está a uma determinada distância de uma estrada ou edifício deve desaparecer — ignora a complexidade dos ecossistemas. O resultado é, muitas vezes, a criação de corredores desolados que, embora facilitem a passagem de veículos de combate, contribuem para a erosão do solo e para a perda de biodiversidade. A verdadeira prevenção deveria passar por uma silvicultura selectiva e inteligente, que soubesse distinguir o combustível perigoso da estrutura arbórea que protege o território. Enquanto a gestão de combustível for vista apenas como uma tarefa de engenharia mecânica e não como um ato de cuidado ecológico, continuaremos a sacrificar o nosso património natural em nome de uma segurança que, ironicamente, pode tornar a paisagem mais árida e vulnerável no longo prazo.
Contudo, perante a crueza destes abates e o rasto de madeira deixado para trás, surge a necessidade de resgatar a dignidade daquilo que foi cortado. Transformar o "entulho" da gestão de combustível em algo contemplativo é uma forma de processar a perda e de manter viva a memória da árvore. Foi precisamente nesse espaço entre o corte e o esquecimento que decidi intervir, utilizando os toros de um pinheiro-bravo — outrora parte da mancha verde local e agora condenado ao abandono — para criar uma instalação que devolve à madeira o seu lugar de destaque no olhar de quem passa.
A instalação nasce da geometria bruta de um pinheiro-bravo que sucumbiu à motosserra. Em vez de permitir que aqueles troncos fossem reduzidos a estilha ou esquecidos num terreno qualquer, decidi reorganizá-los, explorando as texturas da casca rugosa e os anéis de crescimento que contam a história das décadas em que aquela árvore resistiu ao vento e ao sol. Ao dispor os toros de forma deliberada, a obra cria um diálogo directo com o espaço onde o pinheiro antes se erguia; é um eco estrutural do que ali existia.
A escolha do pinheiro-bravo não é apenas estética, mas carregada de simbolismo, sendo esta uma das espécies mais fustigadas tanto pelos incêndios como pelas políticas de abate. Na instalação, a resina que ainda exsuda da madeira funciona como uma cicatriz fresca, e o aroma característico do pinho invade o ar, lembrando-nos da presença física da floresta que estamos a moldar à nossa vontade. Ao transformar material combustível em matéria artística, a peça convida o observador a parar e a reflectir: o que perdemos quando limpamos? E o que podemos salvar quando decidimos olhar para a madeira não como lenha, mas como memória?
A instalação nasce da geometria bruta de um pinheiro-bravo que sucumbiu à motosserra, mas ganha o seu propósito final na forma como os toros são dispostos no terreno. Desenhei no chão um "Z" monumental, uma forma que carrega um triplo simbolismo e que serve de bússola para esta intervenção.
Em primeiro lugar, este "Z" é um apelo directo à Geração Z. É um aviso visual, um sinal de alerta de que o futuro do nosso património natural exige uma atenção renovada e um cuidado muito mais profundo do que aquele que temos praticado. Numa era de gratificação instantânea e ecrãs omnipresentes, a obra convida os mais jovens a largarem o vício do mundo digital e a regressarem à floresta. O objectivo é que utilizem o contacto directo com a terra e o cheiro da resina como um regulador biológico, encontrando no silêncio dos troncos o equilíbrio que o ruído da internet muitas vezes lhes rouba.
Ao mesmo tempo, esta disposição em "Z" é uma afirmação de autoria. Sendo a minha assinatura artística, ela marca o território com a responsabilidade de quem não se limita a observar a destruição, mas que escolhe transformar a perda em pensamento. Os toros, que outrora eram apenas números numa contagem de gestão de combustível, tornam-se agora linhas de um alfabeto que nos liga de novo à vida selvagem. No final, o "Z" no chão da floresta é um convite à visita física: para entender a natureza, é preciso estar nela, senti-la sob os pés e reconhecer que a nossa sobrevivência, tanto física como mental, depende da preservação deste caos verde.
Instalação e Fotografias de Zito Colaço
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