O Navegador de Madeira
Ali jaz ele, entre o bater rítmico do Atlântico e as imponentes escarpas que guardam milénios de memória na Arriba Fóssil. Não é apenas um tronco; é um náufrago sem nome, uma quilha natural que decidiu ancorar na areia dourada após uma odisseia que só as correntes e as profundezas conhecem. Olhá-lo de perto é recuar cinco séculos, ao tempo em que o horizonte não era um limite, mas um convite audaz. A sua textura, gasta pelo salitre e polida pela força bruta das marés, recorda o cavername das antigas naus e caravelas que, tal como ele, enfrentaram o Mar Tenebroso com pouco mais do que madeira e fé.
Se aquele tronco falasse, talvez nos contasse histórias de Adamastores vencidos, de rotas traçadas pela observação das estrelas e do cheiro a especiarias que outrora impregnava as quilhas das nossas frotas. Nas arribas, o tempo está estratificado nas rochas, mas na areia o tempo é trazido pelas ondas, e este pedaço de árvore é o elo de ligação entre esses mundos. É madeira nua, como a dos mastros que sustentavam as velas de cruz de Cristo, e tal como os navegadores de outrora, veio de longe, sem bússola, guiado apenas pelo fado das águas até ser devolvido à terra.
Hoje, quem passa por ele na praia faz a sua própria "achada". Já não se descobrem continentes ou arquipélagos, mas descobrem-se momentos de rara contemplação. O mar continua a ser o mesmo, a audácia é que muda; ontem, as naus levavam Portugal ao mundo, e hoje, o oceano devolve-nos pedaços desse mesmo mundo para que não esqueçamos quem fomos. Enquanto a maré não o reclama de volta para mais uma viagem sem destino, este navegador imóvel permanece ali, como um monumento orgânico à nossa vocação marítima, lembrando-nos que, para quem nasce virado para o mar, cada destroço à deriva carrega consigo a alma de uma grande descoberta.
Fotografias Zito Colaço
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